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Museus devem ser incinerados ou cozidos a fogo lento?

No domingo, dia 2 de setembro de 2018, ficamos todos chocados com as cenas transmitidas ao vivo da incineração do Museu Nacional e de seu acervo. Este choque passou a ter maior relevância no meio jornalístico e para a população em geral quando passaram a ser divulgadas informações acerca da possível perda de mais de 20 milhões de peças em seus acervos.

Uma das perguntas mais ouvidas na cobertura da tragédia foi “o que de importante que foi perdido?”, escolhendo-se um ou listando alguns itens como resposta. A maior perda no incêndio, no entanto, foi a perda do conhecimento que ainda não havia sido descoberto!

Museus são bibliotecas de livros e artigos que ainda não foram escritos. Não são depósitos de coisas antigas e sem serventia, mas sim fontes permanentes de informações que precisam ser descobertas ou reinterpretadas à luz de novos paradigmas ou novas tecnologias. Museus possuem os mais diversos acervos, colhidos ao longo de décadas ou séculos e que são insubstituíveis, e que nos permitem contar a história da Terra, dos seres vivos, da nossa própria espécie, da evolução da nossa cultura e as vezes de nosso próprio declínio.

Museus são como formigueiros, construídos ao longo do tempo com o colecionamento de milhares de peças, cada uma adquirida, coletada, preparada e pesquisada por um especialista diferente – suas formiguinhas. E são incontáveis as formiguinhas de Universidades, Institutos de pesquisa e de outros Museus de todo o mundo (estudantes, pesquisadores, curadores, professores) que passam pelos Museus constantemente para analisar, estudar e fazer novas descobertas com cada uma destas peças já existentes. O incêndio do Museu Nacional choca a população pela perda do acervo, mas certamente choca mais profundamente aquelas formiguinhas que dedicaram suas vidas à construção do acervo, que as vezes conhecem cada peça e seu potencial para novas descobertas e projetos futuros, bem como para o desenvolvimento de novas teses na formação de nossos mestres e doutores.

Mas não sejamos ingênuos, as perdas no Museu Nacional refletem o descaso com a cultura, com a ciência e com o patrimônio nacional. Autoridades nas diferentes esferas se alvoroçam em garantir recursos para a reconstrução do Museu Nacional após o incêndio, e esperamos que realmente o façam, mas não ouvimos propostas claras ou a discussão de políticas nacionais para ciência, tecnologia e preservação de acervos. São discursos vazios. Basta relembrarmos os recentes incêndios do Instituto Butantã (2010), do Museu da Língua Portuguesa (2015) e da Cinemateca Brasileira (2016).

Paradoxalmente aos discursos ouvidos após o triste episódio de perda de acervos do Museu Nacional, que podemos atribuir ao descaso e falta de recursos, encontramos um exemplo sui generis no estado do Rio Grande do Sul, onde a extinção da Fundação Zoobotânica, de seu Museu de Ciências Naturais e de seu acervo é política de estado. Indiferente às manifestações públicas da comunidade científica acerca da relevância destes órgãos e de seus acervos não só para a ciência, mas também para a educação, a documentação, a gestão e a conservação da biodiversidade, o governo rio-grandense persiste em uma cruzada pela sua extinção. O fósforo foi aceso há dois anos, com o envio do projeto de lei de extinção e a sua aprovação na Assembleia Legislativa do estado, e desde então a Fundação Zoobotânica, seu Museu de Ciências Naturais e seus acervos vem sendo cozidos a fogo lento. Surpreendentemente, um dos principais motivos acolhidos pela justiça para a suspenção das tentativas de extinção é justamente a falta de apresentação por parte do Estado de um plano que garanta a manutenção dos acervos. Trágico, não?

O episódio do Museu Nacional é triste para os estudantes e profissionais que lá trabalham, para estudantes e pesquisadores do mundo inteiro que dependem de informações contidas em seus acervos, para todos os brasileiros pela demonstração de descaso pela ciência e pela nossa história, e para o mundo pela perda de um patrimônio antropológico, arqueológico, geológico, paleontológico, botânico, zoológico e histórico que não pertence ao Brasil, mas à humanidade. Espera-se uma união de toda a Sociedade na reconstrução de um Museu Nacional digno de seu status e de sua história.

Aproveitemos então esta cruel oportunidade para discutirmos e revermos nossos valores como Sociedade com relação ao nosso patrimônio científico e cultural, bem como para cobrar de nossos governantes medidas efetivas para sua proteção, e não para sua destruição ou perda. Esperemos também que a indignação causada pelo incêndio no Museu Nacional traga um pouco de lucidez aos políticos gaúchos, abolindo de vez a ideia de extinção da Fundação Zoobotânica, seu Museu de Ciências Naturais e seus acervos. Maior vergonha do que perder patrimônio pelo descaso, é perdê-lo por uma política de estado.

 

Luiz R. Malabarba
Presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia
Coordenador Programa de Pós-Graduação em
Biologia Animal e Vice-diretor Instituto de Biociências, UFRGS

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